Essas palavras caem no papel enquanto você está dormindo desengonçadamente angelical na cama no canto do quarto. Uma trilha sonora melancólica toca na minha cabeça e eu penso em nós dois. Todo o tempo que passamos juntos vai passando nos meus olhos e percebo que ele não foi suficiente pra te conhecer. Me percebo olhando para um desconhecido. Encarando o fato do tempo perdido. Ou mal aproveitado. Percebo que você não é o mais lindo, nem o mais engraçado, não chega perto de ser o mais carinhoso, o mais atencioso, o mais solícito, o mais presente. Mas percebo que uma quantidade suficiente de todas esses adjetivos fez você ser o homem que mais amei. Olho pra você e me sinto confortável, consigo sentir o calor do seu corpo, o afago dos seus braços. Sou uma pessoa frágil, você sabe. Chegar na sua casa, abrir uma garrafa de vinho, dar play no filme e me encaixar no seu colo fazia com que eu me sentisse pertencente a alguém, que eu tinha o meu lugar. E como eu gostava desse lugar. Percebo que o tempo que eu gastei não te conhecendo serviu pra eu me conhecer, saber que eu consigo amar e ser de alguém, que eu consigo ser eu mesma e ser respeitada e desejada por isso. Talvez no fundo eu sempre estivesse apaixonada pelo fato de estar apaixonada. A sua existência distante de mim me mata por dentro. Não saber como foi sua semana, não poder te ligar quando a luz acaba, ou quando passa uma estrela cadente no céu, saber que tem outra rindo das suas piadas e deitando em seus braços... pensar nessas coisas me faz ficar presa ao passado. Eu procuro um pouco de você em cada um que se aproxima de mim, tentando reviver o que você me proporcionou, com medo de me desprender das memórias. Eu sou feita de memórias. Olho pra você deitado e não sei se essa é a última vez que vou te contemplar dormindo. Observo cada parte do seu corpo pra te decorar por inteiro. Todas as últimas vezes que fizemos amor eu aproveitei como se fosse a última por desconhecer nossos passos futuros. Talvez tenha chegado a hora de me forçar a te esquecer, ou pelo menos aprender a lidar com a sua falta. Eu preciso continuar crescendo, mas longe de você. Talvez daqui a alguns anos a gente se encontre de novo e se eu não te reconhecer, me deixa te re-conhecer. Você começou a se mexer e já já vai levantar. Vamos trocar meia dúzia de palavras, você vai me deixar em casa. Quando entrar no meu quarto vou desfazer minha mala, e meus planos.
"Há alegria em poder sentir por ti qualquer coisa.
Nem que seja ciúme do tempo,
Mesmo que seja inveja do lugar.
Ainda que seja apenas a saudade
a noção de um espaço vazio, que é seu, mas que não podes mais ocupar.
Eu reservo esse vazio!
Pois melhor ter de ti, melancolia contente,
Que ter de ti, nada."
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