Assim como Kazuko Okakura, autor do Livro do chá, que se consternava com a revolta das tribos mongóis do século XIII, não porque ela causara morte e desolação mas porque destruíra, entre os frutos da cultura Song, o mais precioso deles, a arte do chá, eu sei que não se trata de uma bebida menor. Quando se torna ritual, o chá constitui o cerne da aptidão para ver a grandeza das pequenas coisas. Onde se encontra a beleza? Nas grandes coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito?
O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.
Fugas mentais ocumpam o pensamento
quinta-feira, 5 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Perseguir as estrelas no aquário de peixes-vermelhos
Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, se deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não queriam ir. Os mais inteligentes até transformam isso numa religião: ah, a desprezível vacuidade da existência burguesa! Há cinicos desses gênero que jantam à mesa do papai: "Que fim levaram nossos sonhos de juventude?", perguntam com ar desiludido e satisfeito. "Desfizeram-se, e a vida é uma bandida." Detesto essa falsa lucidez de maturidade. O fato é que são como os outros, são crianças que não entendem o que lhes aconteceu e bancam os durões quando na verdade têm vontade de chorar.
No entanto, é simples entender. O problema é que os filhos acreditam nos discursos dos adultos e, ao se tornar adultos, vingam-se enganando os próprios filhos. "A vida tem um sentido que os adultos conhecem" é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando, na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais. O mistério permanece intacto, mas toda a energia disponível foi gasta há tempo em atividades estúpidas. Só resta anestesiar-se, do jeito que der, tentando ocultar o fato de que não se encontra nenhum sentido na própria vida e enganando os próprios filhos para tentar melhor se convencer.
Entre as pessoas com quem minha família convive, todas seguiram o mesmo caminho: uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de elite, e depois uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram numa vida tão inútil. As pessoas crêem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável - sem falar que, pelo menos, seríamos poupados de um traumatismo, o do aquário.
No entanto, é simples entender. O problema é que os filhos acreditam nos discursos dos adultos e, ao se tornar adultos, vingam-se enganando os próprios filhos. "A vida tem um sentido que os adultos conhecem" é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando, na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais. O mistério permanece intacto, mas toda a energia disponível foi gasta há tempo em atividades estúpidas. Só resta anestesiar-se, do jeito que der, tentando ocultar o fato de que não se encontra nenhum sentido na própria vida e enganando os próprios filhos para tentar melhor se convencer.
Entre as pessoas com quem minha família convive, todas seguiram o mesmo caminho: uma juventude tentando rentabilizar sua inteligência, espremer como um limão o filão dos estudos e garantir uma posição de elite, e depois uma vida inteira a se indagar com pavor por que essas esperanças desembocaram numa vida tão inútil. As pessoas crêem perseguir as estrelas e acabam como peixes-vermelhos num aquário. Fico pensando se não seria mais simples ensinar desde o início às crianças que a vida é absurda. Isso privaria a infância de alguns bons momentos, mas faria o adulto ganhar um tempo considerável - sem falar que, pelo menos, seríamos poupados de um traumatismo, o do aquário.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
E aqui está a mais impressionante de todas: Campo de Trigo com Corvos. Não pelo que aparentemente diz sobre a fragilidade de van Gogh, porque não acredito que o artista que pintou isso estivesse fragilizado, mas pelo que ele diz sobre as convenções da arte. Mostra Vincent em controle total, nunca antes tão feroz em seu desprezo pelas regras. Em sua apressada corrida para descartar toda a história da pintura de paisagens. Começando pela perspectiva. A questão toda foi criar uma ilusão de espaço profundo, de modo que o olho pudesse vagar com confiança pelo horizonte distante. Mas aqui a perspectiva é inversa, é uma estrada que vai a lugar algum e os dois rastros ladeados parecem subir verticalmente pelo quadro, como o bater de asas. E o que são aquelas bordas verdes? Capim, cercas, o canto de uma árvore? Todos os sinais, nossa concepção de como ler sinais visuais foram maldosamente misturados. Então para o que estamos olhando? Asfixia, com certeza, mas altivez também. Aqueles corvos talvez venham em nossa direção, mas também parecem se afastar, demônios partindo, à medida que mergulhamos em total imersão no poder da natureza. E dentro de uma sólida parede retorcida, cores brilhantes, nas quais a própria cor parece tremeluzir, pulsar e oscilar. E é com essa vida independente de formas em bloco de cor que Vincent van Gogh cria a arte moderna. Este sentimento físico, simultaneamente excitante e assustador, de ser engolido vivo pelo quadro, reside no coração da arte moderna. E foi o que Vincent esteve desejando realizar, desde que pegou um pincel pela primeira vez nos ancoradouros escuros do norte da Holanda. O peregrino venceu a distância.
domingo, 25 de maio de 2014
Crescer aprendendo a dizer adeus
Caminha vagarosa pela cidade
Absorvida pelos seus devaneios
Segue, sem rumo, sem ritmo
Instrospectivamente cambaleante
Bambeia, tropeça,
Seu desequilíbrio chama atenção dos transeuntes
Ela só quer continuar
Só quer se afastar
Não quer voltar
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Contemplação
Essas palavras caem no papel enquanto você está dormindo desengonçadamente angelical na cama no canto do quarto. Uma trilha sonora melancólica toca na minha cabeça e eu penso em nós dois. Todo o tempo que passamos juntos vai passando nos meus olhos e percebo que ele não foi suficiente pra te conhecer. Me percebo olhando para um desconhecido. Encarando o fato do tempo perdido. Ou mal aproveitado. Percebo que você não é o mais lindo, nem o mais engraçado, não chega perto de ser o mais carinhoso, o mais atencioso, o mais solícito, o mais presente. Mas percebo que uma quantidade suficiente de todas esses adjetivos fez você ser o homem que mais amei. Olho pra você e me sinto confortável, consigo sentir o calor do seu corpo, o afago dos seus braços. Sou uma pessoa frágil, você sabe. Chegar na sua casa, abrir uma garrafa de vinho, dar play no filme e me encaixar no seu colo fazia com que eu me sentisse pertencente a alguém, que eu tinha o meu lugar. E como eu gostava desse lugar. Percebo que o tempo que eu gastei não te conhecendo serviu pra eu me conhecer, saber que eu consigo amar e ser de alguém, que eu consigo ser eu mesma e ser respeitada e desejada por isso. Talvez no fundo eu sempre estivesse apaixonada pelo fato de estar apaixonada. A sua existência distante de mim me mata por dentro. Não saber como foi sua semana, não poder te ligar quando a luz acaba, ou quando passa uma estrela cadente no céu, saber que tem outra rindo das suas piadas e deitando em seus braços... pensar nessas coisas me faz ficar presa ao passado. Eu procuro um pouco de você em cada um que se aproxima de mim, tentando reviver o que você me proporcionou, com medo de me desprender das memórias. Eu sou feita de memórias. Olho pra você deitado e não sei se essa é a última vez que vou te contemplar dormindo. Observo cada parte do seu corpo pra te decorar por inteiro. Todas as últimas vezes que fizemos amor eu aproveitei como se fosse a última por desconhecer nossos passos futuros. Talvez tenha chegado a hora de me forçar a te esquecer, ou pelo menos aprender a lidar com a sua falta. Eu preciso continuar crescendo, mas longe de você. Talvez daqui a alguns anos a gente se encontre de novo e se eu não te reconhecer, me deixa te re-conhecer. Você começou a se mexer e já já vai levantar. Vamos trocar meia dúzia de palavras, você vai me deixar em casa. Quando entrar no meu quarto vou desfazer minha mala, e meus planos.
"Há alegria em poder sentir por ti qualquer coisa.
Nem que seja ciúme do tempo,
Mesmo que seja inveja do lugar.
Ainda que seja apenas a saudade
a noção de um espaço vazio, que é seu, mas que não podes mais ocupar.
Eu reservo esse vazio!
Pois melhor ter de ti, melancolia contente,
Que ter de ti, nada."
"Há alegria em poder sentir por ti qualquer coisa.
Nem que seja ciúme do tempo,
Mesmo que seja inveja do lugar.
Ainda que seja apenas a saudade
a noção de um espaço vazio, que é seu, mas que não podes mais ocupar.
Eu reservo esse vazio!
Pois melhor ter de ti, melancolia contente,
Que ter de ti, nada."
terça-feira, 20 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
"Se estou só, quero não estar, se não estou, quero estar só, enfim, quero sempre estar da maneira que não estou."
Fugas mentais e buscas (in)constantes pela hedonística sensação de estar, ser e ter. Quando as palavras confundem os sentidos e brincam com as ideias. Legitimamente mutável. Inúmeras surpresas, gracejos e incertezas atraindo para o abismo da liberdade inconstantemente absoluta. O controle de arrumar a bagunça. Prender-se ao fato de estar solto. Os devaneios concretos de pertencer ao inatingível. O momento em que a solidez penetra a mutabilidade e arrebata os sentimentos de rijeza passageira.
porque o homem é uma criatura inconstante: Eis a minha conclusão (incompleta)
Fugas mentais e buscas (in)constantes pela hedonística sensação de estar, ser e ter. Quando as palavras confundem os sentidos e brincam com as ideias. Legitimamente mutável. Inúmeras surpresas, gracejos e incertezas atraindo para o abismo da liberdade inconstantemente absoluta. O controle de arrumar a bagunça. Prender-se ao fato de estar solto. Os devaneios concretos de pertencer ao inatingível. O momento em que a solidez penetra a mutabilidade e arrebata os sentimentos de rijeza passageira.
porque o homem é uma criatura inconstante: Eis a minha conclusão (incompleta)
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